Polindo Arestas



Todos nós, quando temos nosso encontro pessoal com Jesus Cristo, vivemos um momento singular em nossa vida. É um momento em que se descortina diante de nós toda a alegria de quem encontrou a pérola preciosa de sua vida (Mt 13, 45). É quando nosso coração recebe o vinho novo da Palavra, novos sentimentos começam a brotar no coração, nos pensamentos. Um novo sopro bate lá no fundo da alma, inspirando novas atitudes. Passamos então a viver o que eu costumo chamar de “Lua-de-mel” com Deus. Passamos também a buscar intensamente nossa espiritualidade, os sacramentos, deixamos uma série de atitudes que já não condizem com o novo que passamos a viver. É quando somos de fato resgatados por Deus e iniciamos nosso processo de conversão.

Não há palavras que descrevam o quão maravilhoso é viver este momento. Sentir-se transformado por Sua Presença em nós é essencial para que de fato optemos pela vida nova em Cristo. Experimentar concretamente a tão falada alegria que não passa nos enleva, nos dá coragem para enfrentar as barreiras que virão neste primeiro momento da vida com Deus. Ao mesmo tempo, toda essa alegria, se bem orientada numa vivência de fé consciente e madura, ao invés de nos alienar, torna-se um resumo de toda a felicidade que há de pontilhar nossa vida, mostrando-nos o que nos espera no Céu.

Inicia-se então uma nova história. A vida com Deus vai nos envolvendo o coração, a alma... Ter encontrado essa vida nova vai pouco a pouco desenhando uma nova meta para nossa vida. Ou melhor, vamos enxergando com mais clareza o que Ele tem para nós. Vai então surgindo a inspiração de uma segunda conversão, mais intensa, mais intima, mais próxima Dele. Esse mesmo Deus que nos resgatou de um mundo de vícios e pecados começa a lapidar as arestas do diamante que existe em nós. Tirar a casca grossa que envolvia nosso coração não foi tão difícil afinal. Agora, porém, as pequenas arestas e pontas de pecados que há em nós serão harmonizadas, lapidadas. E então vamos dia a dia nos deparando com os toques finais que o Artista fará em sua obra. Constantemente vamos encontrando aqueles cacos que ainda precisam ser polidos ou mesmo lascados na pedra para que tomemos a fôrma correta. Mas qual será essa fôrma?

Tenho por certo, embora não conheça a fundo o oficio de escultor, que o estado mais delicado na composição de uma obra de arte é justamente o dos retoques finais, pois é aí que a peça vai tomando a forma característica do artista que a construiu. E na delicadeza deste momento torna-se ainda mais latente e visível o amor do artesão pela peça que constrói. Ao mesmo tempo o artista se esmera de tal modo na feitura de sua peça que passa a consumir-se no capricho com que deseja ornar sua criação.

Essa é a dinâmica da nova conversão que Deus nos conduz a viver. Tal qual o fundidor de prata passa horas, dias, meses purificando a prata bruta numa fornalha, assim Deus age conosco. E causa uma imensa admiração, e faz vibrar a alma saber que o sinal de que a prata já está realmente purificada é o fato de que ao olhar para a prata, o fundidor vê nela sua própria imagem refletida.

Confesso que a inspiração para refletir sobre esta passagem bíblica surgiu não da convicção de que já estivesse abalizado o suficiente para falar de conversão. Antes, foi um apelo interior de Deus, mostrando-me o quanto ainda preciso me deixar transformar naquelas realidades que para mim nem parecem pecado, mas que são arestas e pontas que ainda desarmonizam aquilo que sou daquilo que quero ser. Não me adiantará arrancar grandes árvores se também as raízes entranhadas em mim não forem desenterradas.

A reflexão aqui proposta serviu como uma partilha e mesmo como uma automedicação. Sinto que Ele quis falar muito mais a mim mesmo do que a todos quantos possam vir a ler este texto. Quero tal qual São Paulo, por meio de uma busca sempre mais intensa do Seu Amor, refletir constantemente Sua Face no dia a dia, a ponto de poder dizer: “Eu vivo, mas já não sou eu. É Cristo que vive em mim!” (Gal 2,20)


Com carinho e orações
Roberto Amorim
18/05/2009