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Tempo, Véu que Recobre a Eternidade



 

    
    São duas faces da mesma história, duas cores no mesmo quadro. Os traços se encontram e se unem sem confusão, complementam-se na divina harmonia que excede todo entendimento. São dois lados da eternidade para a qual o Criador nos fez. O tempo cronológico, inexorável e aparentemente impiedoso, enseja e supõe o caminho para o eterno. Como um noivo deseja ardentemente o encontro com sua amada, o tempo corre pressuroso para o enlace com a eternidade.

    Hoje insuspeitadamente senti esta inspiração na alma, sem que soubesse como nem por quê. De modo admirável, o Espírito de Deus me levou a refletir acerca de uma linda frase que aprendi numa canção: "O tempo esconde o que é eterno." Por meio dessa pequenina frase, percebi e senti no intimo de meu coração que, rumando nossa vida para o eterno oculto sob o véu do tempo, direcionando nossa história para o amor de Deus e o Deus que é amor, entendo hoje que todo tempo vivido sem amor é vão. Longe aqui de supor que viver a vida no amor seja sentir o frisson e os arrepios de uma paixonite passageira, viver este tempo presente no amor deve imprimir em nós o caráter de busca pela vida que Deus deseja nos dar. "Estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus" (Col 3). Algumas vezes a busca por esta vida nos traz momentos de dor, sofrimento, deparamo-nos com os limites de nossa condição humana. Visto por corações rasos o sofrimento parece contradizer totalmente a vivência desse amor. Entretanto, tal como a eternidade comporta em si o tempo, o amor traz em si a dinâmica do sofrimento. Ou de outra forma, o tempo presente, como sendo apenas o véu da eternidade, traz oculto o mistério de nossa vida em Deus. Assim também o sofrer vivido como entrega esconde em si o amor transfigurador de Deus, que faz esta vida um prenúncio do tempo eterno.

    Mais uma vez, pensando na frase que inspira esta pequena reflexão, me disponho a ficar de ouvidos e olhos atentos para não perder a essência do que ela diz. O tempo esconde o que é eterno. Este tempo, sacerdote das humanas razões, entrega no altar da vida o material com o qual construímos nossa história, para que, se assim desejarmos, a misericórdia de Deus resgate aquilo que não cabe em nós, que não é reflexo de nossa origem. Todo o tempo vão, vivido em caricaturas de amor, pode e será resgatado e redimido no Coração Misericordioso daquele Homem-Deus, que, na cruz, contraiu tempo e eternidade numa só realidade de amor e entrega. O gênero humano, redimido na Cruz, tem agora nas mãos o bilhete que lhe garante a eternidade sonhada pelo Criador quando rabiscava em sua prancheta o Seu projeto de amor para nossa vida. A opção de viver já a antecipação deste projeto é e sempre será unicamente nossa. Ainda que o tempo oculte o eterno, os sinais estão espalhados por aí, esperando para serem colhidos por nós. 

Com carinho e orações
Roberto Amorim 
06/06/2010 - 03:01h

Veni Sponsa Christi



               

“Veni, Sponsa Christi,
Et  accipe coronam,
Quam tibi Dominus præparavit in æternum"”


              Será este o chamado ao qual responderá a Igreja, esposa imaculada do Cordeiro, no dia do juízo: “Vem, Esposa de Cristo, e recebe a coroa que o Senhor preparou para ti desde toda a eternidade.” Soe como proselitismo ou não, ou talvez como um insustentável despautério, dada a superexposição midiática de escândalos de todo tipo envolvendo os sacerdotes da Igreja, entre outras chagas que têm sido exploradas ultimamente pelos veículos de comunicação, a verdade permanece única e inalterada: a Igreja é santa e imaculada, esposa eleita do Cristo Senhor, e o pior dos pecados da raça humana não têm a menor possibilidade de manchá-la em sua santidade, que não é oriunda de uma pretensa dignidade dos (in)fiéis, mas antes, proveniente do amor esponsal do Cristo.
                Em diversas épocas de sua historia, a Igreja passou por perseguições e tempestades que por muito pouco não a fizeram naufragar. Tempestades essas que, ainda que compostas de contraposições heréticas  à sã doutrina, minavam os alicerces mistéricos da Igreja, como por exemplo o arianismo, que negava a divindade de Cristo. E mesmo nos tempos de perseguições mais ferozes, como a de Nero, quando os cristãos, sendo jogados como banquete às feras, eram espetáculo nos Circos Romanos, , mesmo nessa época, a Igreja, por força e providência de seu Divino Fundador, atravessou vitoriosa tais intempéries.
                Ora, nos tempos atuais vemos uma verdadeira “cruzada” contra a Igreja e tudo o que faça a menor menção a uma consciência e vivência cristã coerente com a fé recebida dos apóstolos. Se em outras eras os ataques à Igreja eram feitos mirando-se a essência doutrinal (portanto, ataques no mínimo mais consistentes e perniciosos), hoje percebe-se que, uma vez estabelecido o fundamento da fé desta Igreja – e não há outro fundamento senão Cristo Ressuscitado – os ataques resumem-se a aviltar os membros do corpo de Cristo, posto que é impossível abalar os alicerces espirituais da fé católica. Entretanto, ainda que tantos ataques sejam feitos à Esposa Eleita, à alma fiel socorrem as palavras de Jesus: “(...)e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18).
                Contudo, ainda se poderia pensar erroneamente que a Igreja, numa atitude covarde, buscando por medo ocultar  as mazelas e limites de alguns de seus membros, se pusesse acima de tais acontecimentos, alienada e alienando seus filhos, instruindo-os e encorajando-os a ignorar tais situações. Na verdade, ao contrario do que se possa pensar, a Santa Igreja, como guardiã da Verdade, não tem a razão para temer a perda de fiéis, mesmo porque já diz uma máxima filosófica: não se perde aquilo que não se tem. Longe de manter uma posição temerária e tradicionalista, como alguém que, vendo uma frondosa arvore perder galhos e folhas secas numa ventania, corre para colar de volta na arvore tais folhas, a Igreja não age e jamais agirá desse modo. Ela põe no coração de seus filhos justamente a certeza de que, numa ventania, não se perdem senão galhos mortos, e a poda é necessária para a seiva da árvore irrigar mais e melhor o todo. Assim, assumindo a verdade mística do mistério da salvação, os filhos da Igreja sabem que ela seguirá o seu Divino Pastor em sua Paixão, Morte e Ressurreição.
                Por fim, ultimamente “qualquer pedaço de pau serve para se bater na Igreja católica.”(Padre Paulo Ricardo). Em meio a essa balbúrdia, torna-se imprescindível que oremos e redobremos nossa fidelidade à Mãe Igreja, por ela roguemos com o coração mais e mais apaixonado. Sabemos por meio das palavras do apóstolo São Paulo: Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada.(Rom 8, 18). Assumamos, portanto, sem medo, a identidade de católicos. Vivamos o martírio da fidelidade, testemunho vivo com o derramar de nossas vidas por amor a Cristo e Sua Esposa! Tenhamos dentro da alma a certeza de que a eleição da Igreja por seu Senhor e Deus a torna Santa e Imaculada! Sem temor, sem dúvidas, sem reservas, tenhamos selada em nós esta grande verdade:
A IGREJA É SANTA!
DEVEMOS AMÁ-LA!



No amor de Cristo,
Divino Esposo da Igreja Santa e Católica,
Roberto Amorim – 30/05/2010

O PREÇO DE NOSSA SANTIDADE


Hoje em meu coração Deus deixou cair um pequeno, mas pungente espinho. Digo “deixou cair” não porque tenha sido descuidado, mas porque permitiu, como mais um sinal de carinho Seu para comigo. Percebo que os carinhos do Senhor não precisam fazer sentido para este tempo, para os olhos e almas que enxergam somente o que passa. O horizonte do eterno, aquele que os olhos e coração puramente humanos não alcançam, é tracejado de adornos que somente a pobreza permite contemplar e saborear. Por muitas vezes, eu não possuo essa graça, mas a Ele apraz me corrigir em Seu Amor para que a vida que desejo viver possa viver em mim e ser também vida para os irmãos.

Neste dia, uma doce angústia me pulsava – e ainda pulsa – no coração. Minha alma se perguntava algo que por certo habita em mim, mas hoje me tocou de modo mais forte e mais doído: Qual o preço de nossa santidade? O quanto nos custa a vida com Deus? Hoje, percebo que, se nada nos custa a vivência de nossa fé, a nossa busca por Deus, também não há um grande valor nela. O quanto te custa a tua santidade é o quanto ela vale. Se a vida em Deus nos custa muito, se a busca de nossa santidade é permeada das renúncias características a um grande amor, se nos é custosa a opção por estar a caminho do céu.., em suma, se nossa santidade nos custa muito, ela vale muito. Mas se, ao contrário, a busca por Deus não tem nos levado a optar muitas vezes por vias que, apesar de dolorosas, ocultam atrás de si a parcela de ressurreição de cada momento; se buscar a Deus não tem sido razão de grandes lutas; se não nos custa nada buscar ao Senhor e Sua Verdade, então, ainda que doa dizer, essa busca não vale nada.

Por certo que não falo aqui de uma busca por Deus na qual o próprio Senhor vá nos obrigar a sofrer o tempo todo. Não há sentido em pensar isso, ainda que muitas vezes nós mesmos insistamos em perguntas infantis do tipo: “Se Deus é bom, por que estou sofrendo?”. Mas é necessário entender que se nos dispomos a uma vida de discípulo, nos é necessário ser temperados por Deus, viver a martyria – testemunho – da opção diária e constante por Sua vontade. É errôneo achar que o SIM a Deus seja apenas um momento de nossa história, quando na verdade, o eco desse sim deve plasmar todo o caminho feito daí para frente.

Penso que no sim de cada dia, reflexo e ressoar do chamado inicial, há sempre um preço a ser pago, há sempre a possibilidade de optar entre a liberdade de ser de Deus e a escravidão de resguardar-se para si mesmo. “Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna” (João 12, 25). Não há uma receita para se seguir ao Senhor sem precisar passar por essa dinâmica de morte e ressurreição: a decisão de pertencer a Deus sempre passará pela pergunta: O QUE TENS DE TÃO VALIOSO QUE NÃO POSSA SER TROCADO PELO TUDO? Tal pergunta foi feita de diversas formas a tantos na história da salvação. A Abraão, Moisés, Samuel, Maria, aos Apóstolos... Assim como cada um desses deu seu SIM ao longo de uma história em que Deus tornou-se mais do que uma ideia, mas uma realidade perfeitamente tangível em suas vidas. Ao mesmo tempo, a mesma pergunta foi feita ao jovem rico, que se afastou sem ter o que responder, justamente por não pagar o irrisório preço de sua realização em Deus.

Termino esta reflexão com uma inspiração completamente providencial. Enquanto redigia esta reflexão, dava-me o Senhor a Graça de partilhar com minha afilhada acerca da vida com Deus. Não mais que de repente, creio que Deus soprou aos ouvidos dela a frase com a qual encerro a reflexão. Seja ela nossa inspiração para nos decidirmos a pagar o preço para vivermos o que Deus nos propõe...

Eu prefiro ficar com meus olhos vendados para o futuro,
Mas continuar olhando os passos que estou dando hoje
(Christine Vecchi)





Com carinho e orações,
Roberto Amorim
10/05/2010 – 21:01h