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Natal Pobre


Et Verbum caro factum est et habitavit inter nobis
                Há cerca de uns dois ou três dias não me sai da cabeça essa expressão e confesso que passei a celebração natalina deste ano com o firme desejo de entender o que ela poderia significar para mim e para os meus, e também vivê-la. Confesso que não sei se eu a vivi, de fato, entretanto, gostaria de partilhar esta inspiração breve e simples com todos nesta época em que celebramos o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.
                Na noite de 24/12, enquanto me preparava para ir à Santa Missa junto com minha mãe, ela comentava comigo que estava um pouco entristecida porque não tinha preparado uma grande ceia de natal aqui em nossa casa, por vários motivos: disse que não tinha condições financeiras, ela mesma não poderia comer a maioria das iguarias que se prepara normalmente nesta data, ou por não gostar ou por não poder mesmo... Enfim, uma série de razões que acabaram por deixá-la entristecida numa noite tão significativa para nós. Enquanto eu ouvia isso de minha mãe, passou-me pela cabeça a ideia de que em muitos lugares o Natal tem tudo isso que nos faltava, mas não tinha o principal. Foi quando respondi: “Mãe, podemos não ter nada disso que tem nas casas da maioria das pessoas, mas temos o presépio. Então, temos o Natal inteiro! E veja só: temos ao vivo dois símbolos das figuras mais importantes dessa noite. Uma é a Mãe – você – e a outra, o Menino – eu (mesmo tendo 29 anos, rs)”

                Sei que essa inspiração pode soar como sentimental e piegas demais, mas decidi partilhá-la porque fez parte da minha inspiração de Natal desse ano. E acredito que nunca desejei tanto ter um natal pobre. Não me entendam mal, não falo tão somente de pobreza material, e nem julgo errado que se faça uma alegre ceia de Natal nesta noite, mas acredito ter pensado do modo correto. Eu quis do fundo da alma um Natal pobre, para mim e para os que amo. Pobre no sentido de guardarmos em nós somente o essencial dessa noite, somente o que fez essa noite ser singular e única no mundo. Penso isso comparando a festa dessa noite com todas as outras festas que normalmente vivenciamos ao longo do ano: Reveillon, aniversários, confraternizações, festas de casamento, sejam quais forem... Todas tem alegria, festa, música, dança. Esta noite, contudo, tem algo por demais singular para ser entendido somente como uma espécie de boa intenção espiritual; é algo que simplesmente rompe as portas da lógica humana e das possibilidades naturais deste mundo: Et Verbum caro factum est et habitavit inter nobis – E O VERBO SE FEZ CARNE E HABITOU ENTRE NÓS. E é isto que faz essa noite diferente de todas as outras. Deus veio morar conosco, experimentar nossa vida, partilhar nossa história, viver nossa limitação e todas as vicissitudes humanas, exceto o pecado.

                Bem, foi isto que desejei intensamente para mim, e para os meus nessa noite. Eu quis muito um Natal pobre. Não pobre no sentido pejorativo, mas, como falei aqui ao longo desta pequena reflexão, cheio da pobreza da Gruta de Belém, cheio da solidão que invadia o coração da Virgem. Solidão não por sentir abandono ou menosprezo, mas a solidão que somente Deus pode preencher. Desejei este Natal para mim, cheio do essencial. Confesso que talvez eu não tenha conseguido viver isso plenamente nestes dois dias, 24 e 25/12, mas temos a graça de sermos filhos de um Deus que ouve intenções do coração. Não quero dizer aqui que somente boas intenções bastam para nos levar ao céu, mas Deus escuta nossa oração e nossos desejos quando estes vão de encontro aos Dele.

                É isto. Desejei para mim um Natal pobre, cheio unicamente da riqueza da manjedoura de Belém, que albergava naquela noite feliz o maior tesouro do universo; desejei um natal frio, cujo calor brotasse somente do Amor Divino encerrado na Carne Humana assumida pelo Verbo. Tal foi o Natal que desejei para mim e tal é o Natal que desejo para os meus.

                Um Feliz Natal. Pobre, somente com o essencial reinando em vossos corações: A Virgem e o Menino Deus.

Roberto Amorim
Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo - 2011

Porta entreaberta..


                A porta estava entreaberta. Deixei-a assim sem notar, ocupado que estava, como sempre, em tantas circunstâncias acidentais do meu cotidiano. Circunstâncias que gritam e arrogam-se urgências. E eu, atarefado e disperso, entretido com aquilo que passa, mal percebi quando ele chegou. Aproximou-se com cautela, a passos leves, não por medo, mas por não querer fazer alarde. Vi quando me olhou pela fresta da porta e deu três delicadas batidas no umbral. Olhei e o vi por entre o espaço aberto, acenando para mim discretamente. Apressei-me em abrir a porta e estaquei em sua frente. Fitava-me com um ar jovial, sorrindo mais com os olhos do que com os lábios, e olhava-me profundamente em silêncio. Sabia que eu o esperava, entretanto sabia da minha indisfarçável surpresa.  Sorriu como quem percebe uma situação engraçada, e isso me deu coragem para dizer-lhe um “Oi!” meio sem jeito, sem saber se essa era a melhor forma de saudá-lo. Respondeu-me com delicadeza, sem querer me assustar ou me surpreender ainda mais: - Olá! Desculpe-me por vir assim sem aviso! – disse ele, ainda parado à sombra da marquise de minha porta. Convidei-o para entrar, ao que aceitou prontamente. Não parecia cansado, ainda que levemente ansioso. E entrou em minha casa.

                Eu estava realmente desajeitado. Ele, notando isso, tratou então de agir como quem sabe onde está, e de fato o sabia. Puxou uma cadeira e se sentou à mesa da varanda, colocando sobre ela as mãos calejadas e fortes, típicas de quem as utiliza para o trabalho. Distraiu-se por algum tempo observando o arranjo de flores à sua frente, e parecia gostar do que via. Olhou para mim outra vez com um sorriso e disse: - Belas flores! – Respondi que sim, eram realmente belas. E eu de fato achava que era um belo arranjo, mesmo que fossem muito simples. Mas disse-lhe que não havia sido eu quem as pusera ali. – Sim, eu sei – disse ele – mas não importa. Importa que elas aqui estejam embelezando a tua mesa e tua casa, sendo simplesmente o que são. Isto basta!  Calei outra vez.

                Olhei o relógio. Era por volta do meio-dia. Não estava sol, mas havia o típico calor primaveril das tardes cariocas. Notei que ele viera de longe, e talvez estivesse com fome ou sede. Mas ainda atônito, me peguei observando-o minuciosamente. Era alto, seu rosto tinha qualquer coisa de solene e simples, majestático e singelo ao mesmo tempo. Seus olhos, ao mesmo tempo distantes e misteriosos, eram penetrantes e atentos, de uma cor entre o castanho escuro e o púrpura. Não me lembrava de ter jamais visto olhos assim.

                

                                

                                 Sentado, meu hóspede esquadrinhava curiosamente toda a varanda. Paredes, teto, chão, os quatro cantos de minha varanda. Parecia tão familiarizado e à vontade com o espaço que não parecia ser sua primeira visita. Ainda assim, parecia absorto, e cada detalhe o encantava e recebia singular atenção sua. Foi quando, enfim, saí de minha letargia silenciosa e consegui perguntar-lhe se queria um copo d’água. Ao ouvir isso, sorriu outra vez. Riu, na verdade. Olhou para o vazio, como se lembrasse de algo, e logo olhou nos meus olhos novamente. Fez menção de dizer algo, mas calou-se. Eu queria ter perguntado, insistido que me dissesse o que pensara, mas não tive coragem. Enfim, aceitou a água e agradeceu. Dei-lhe o copo cheio e a garrafa, caso quisesse mais. Ele bebeu metade do copo, encheu-o novamente e terminou de beber. Enquanto enchia pela terceira vez, olhava-me como se algo quisesse me dizer, mas sem palavras. Tomou o terceiro copo de água e colocou-o sobre a mesa. Como eu disse, ele não parecia cansado, mas tinha muita sede.

                Convidei-o para entrar na sala, onde era mais agradável e confortável. Entrou na frente, sempre delicadamente, sem atropelos. Manso seria a palavra. Olhando em torno, viu as paredes apinhadas de quadros religiosos, e entre tais adornos, deparou-se com um crucifixo de parede, grande. Olhou com profundo sentimento para o objeto, sem esconder uma pontada de dor. Olhou por algum tempo e fechou os olhos, com a mesma expressão de dor, profunda e viva. Respirando fundo, juntou as mãos com força, esfregando-as sofregamente uma na outra, enquanto, de olhos fechados, parecia ter um diálogo silencioso e dramático. Eu o contemplava fascinado, querendo entrar em sua mente para saber o que pensava. Pobre ilusão a minha!



                De súbito, abriu os olhos outra vez, e permaneceu olhando o crucifixo ainda algum tempo. Esquadrinhou-o novamente, respirando fundo e de expressão mais serena, ainda que não escondesse o semblante de dor. Notou que o crucifixo não apresentava a chaga do coração. Seus olhos marejaram, meneou a cabeça negativamente e, por fim, disse olhando para mim: - Raramente lembram-se da chaga no peito! Raramente os homens se lembram justamente dessa chaga e, no entanto, foi  a que mais doeu!  – Senti-me perfurado por sua frase. Ele notou, olhou-me novamente nos olhos e não disse mais nada. Continuou a adentrar a sala silenciosa e iluminada pelos raios de sol que invadiam a janela.



 Ele sentou-se em meu sofá e ajeitou-se, recostando-se ao braço do assento. Olhou as imagens de santos sobre a estante e os vários quadros na parede. Anjos, santos, os pequenos ostensórios... Viu, enfim, a imagem da Virgem das Graças. Voltaram-lhe à face a leveza, a jovialidade, o sorriso menino. Pareceu-me tão apaixonado e enternecido que também eu deixei-me enlevar pela imagem e por ele, olhando-a. Deixei escapar um misto de riso e suspiro, e ele virou-se rapidamente para mim, dizendo com graça: - É de fato a mais bela criatura dentre todas, incomparável para todo o sempre! E sabes por quê? Porque nela habitou o amor com o qual o homem não é capaz nem mesmo de sonhar! - Agora foram meus olhos que marejaram, e uma das lágrimas acabou por escorrer-me a face, à qual me apressei em enxugar. Ele sorriu e disse: - Estas tu não deves enxugar! Deixa que escorram! – A censura, doce e carinhosa, fez-me corar e lacrimejar um pouco mais, e ele pareceu gostar. Voltou os olhos para a imagem que o enternecera tanto, dando-me a chance de me recompor.


                Por fim, olhou-me novamente, agora disposto a me escutar. Não que antes não o estivesse, mas agora sem distrações. Novamente perdi a voz e pedi desculpas por não ter algo a oferecer para um lanche ou qualquer coisa, pois estava sozinho naquele dia. Ele me olhou, sorrindo de modo discreto. Olhou-me profundamente nos olhos, e parecia ver minha alma por completo. Seu olhar invadiu-me, rasgou-me a alma em duas. Então, sorrindo muito mais com os olhos do que com os lábios, disse-me: - Sim, eu sei que estás sozinho! Sei que tens estado muito sozinho ultimamente!-. E eu não pude fazer outra coisa senão desviar os olhos dos seus, olhos nos quais eu via majestade e singeleza. Busquei o chão, a TV, as paredes, ainda que atraído pelo olhar do qual há pouco eu desviara. Ele insistia em fitar-me, e seu olhar sobre mim fez-me entender que eu, muitas vezes, busco a solidão cada vez que dele desvio os olhos. Ele mesmo sabia do medo que eu tinha e tenho de encará-lo. Ele entendia meu medo, pois também o sentira antes. Não disse nada, mas tocou meu ombro e isto bastou. Levantei o rosto e vi que ele também chorava como eu, ainda que em meio a isso ambos tenhamos esboçado um sorriso um para o outro. Nós normalmente nos comovemos com a dor dos que amamos. Às vezes chega a nos dar pena. Ele sentia o que eu estava sentindo. Fez-me um carinho no rosto - coisa de pai -, deu um tapa em minha perna e encorajou-me a falar, conversar com ele.

                Falei de mim, dos que amo, do que temo. Falei dos meus medos, correntes que prendem meus sonhos ao chão. Ele me ouvia atentamente e vez por outra antecipava a conclusão de alguma situação. Eu me agitava, interrompia as frases, entrecortando-as com tosses, pigarros e outras fugas momentâneas. Ele as notava, mas delas não fazia caso, fazia não notar minha hesitação e fitava-me tão profundamente que era inútil fingir qualquer coisa, vestir qualquer máscara. Ele mirava o meu coração.

                Falei dos meus erros, do que eu julgava ser erro nos outros e do que eu sabia que os outros condenavam em mim. Ele rabiscava palavras numa folha de papel que apanhara sobre o sofá. Não estava disperso ou desinteressado, mas mais compenetrado na essência do que eu dizia e não no que era acidental. Ora sorria, fechava os olhos, permitia-me saber que não eram necessários relatos muito detalhados. Tudo estava a ele descoberto, mesmo o que eu não dizia, fosse por medo ou hipocrisia. Mais de uma vez vi seus olhos congestionarem-se e seu semblante tornar-se irado. Entretanto, não direcionava a mim esse olhar, mas tão somente à causa dos meus erros mais profundos. Eu me envergonhava nesses momentos. Ele, porém, olhava-me e me acolhia em seu olhar, e me pedia outro copo d’água. Sentia sede mais intensa nesses momentos.

                Deixei então que ele me dissesse algo. Parecia ter tanto a dizer, tanto a revelar-me, e eu estava também sedento por ouvir. Mas ele não dissera nada. Talvez tivesse notado que eu mesmo não dissera tudo. Havia uma dor calada em mim que não me permitia dizer. Uma dor que parecia viva, profunda, intensa, como um organismo parasita em mim. Ele viu minha dor, percebeu o que eu dizia sem falar.                

                Enfim, levantamo-nos; chamou-me para acompanhá-lo ao lado de fora de minha casa. Fui sem questionar, pois sentia que era o que devia fazer, ainda que não entendesse o porquê. Ventava docemente, uma brisa que parecia preparada para aquela tarde. Ele agora olhava para o céu como quem espera um sinal, uma voz. Não ouvi nenhuma, mas ele sim. Fechou os olhos e disse algumas palavras num tom muito baixo, as quais não compreendi e numa língua que não me era familiar. Abriu os olhos e pediu que eu me aproximasse. Congelei. Ele notou meu desassossego interior e sorriu, me disse que não tivesse medo. Ele abriu os braços, alcançou-me, protegeu-me. Não pude conter as lágrimas. Respiramos fundo juntos, ao mesmo tempo. Impossível dizer qual a impressão de respirar junto com Ele, respirar no mesmo ritmo e compasso do coração Dele.

             Por fim, separamo-nos. Olhou-me mais uma vez nos olhos. Tocou-me o rosto e já sorria com saudades. Notei que se tratava de Sua despedida. Ou um ”Até breve!”. Mas não poderia ir sem me dizer algo, pois notava que agora, após tão singular encontro, era o meu coração que se encontrava sedento. E Sua voz, forte e serena, reverberou em mim de modo inconfundível:

“Não temas! Minhas promessas para ti hão de se cumprir!
 E não te deixes enganar: sabes bem que Eu já as revelei a ti.
 Ensurdece teus ouvidos para os sussurros insidiosos do Inimigo contra ti.
 Tens a Mim, e Eu tenho a ti! Isto te basta!
Ouve minha voz e serás vencedor!
Tende coragem, pois EU ESTOU CONTIGO!”

                E enquanto eu o ouvia, subitamente, já não estava mais lá. Somente o eco de Sua Voz residia agora em mim, e tudo preenchia.

                Foi quando me aproximei da porta, que ainda estava entreaberta. E ali eu permaneci por um longo tempo, envolto na eternidade que acabara de viver.


               Assim findou o dia, e eu ainda não sabia qual nome dar a tudo isso. Deus veio me visitar, e a muitos outros talvez. Chegou sem fazer alarde, tão singelo quanto homem, tão majestoso quanto Deus. Sentou-se em minha varanda e tomou alguns copos de água comigo. Visitou minha história e se foi, sem me deixar, contudo. Permaneceu em mim. Foi-se, mas não me abandonou. E eu agora parecia mais completo, mais eterno, mais perto daquilo que de fato sou.        
               
                 

                                                                E a porta permaneceu entreaberta...

        
        Roberto Amorim
08 de Dezembro de 2011 – 01h30minh


"Porei hostilidade entre ti e A MULHER" (Gênesis 3, 15a)

               

               Essa tarde, durante um passeio com minha mãe, enquanto ela se ocupava de coisas de seu interesse particular, fiquei sentado à mesa de um café lendo as páginas de um antigo livro que tenho sobre exorcismo e possessões, do padre exorcista Francesco Bamonte, religioso dos Servos do Imaculado Coração de Maria. Para minha feliz surpresa, especialmente nestes tempos em que me preparo para a renovação da minha consagração como Escravo de Jesus pelas mãos da Virgem Maria, encontrei no livro que lia preciosos relatos de casos de nos quais o demônio, sempre impelido pela Vontade Divina, revelava verdadeiras catequeses teológicas da fé cristã autêntica e integral. De modo particular e não menos precioso, o livro apresenta momentos de intensa experiência mariana nos exorcismos. Assim, não tenho muito o que expor aqui, senão a transcrição do próprio livro, que creio ser de muita utilidade para nossa fé e formação, certamente além de fortalecer e consolidar nossa fé e devoção à Virgem Santíssima. Deixo-vos com as palavras do Pe. Bamonte:


                “Particularmente consoladora é a experiência mariana nos exorcismos. Quando Nossa Senhora é nomeada os exorcistas verificam como os demônios, pelo seu grande desprezo e ódio nos confrontos com Mãe de Deus, enfurecem-se terrivelmente. Sem ousar nunca chama-la pelo nome, dizem “aquela”, acrescentando uma porção de injúrias nos seus confrontos, porque lamentam que ela arruíne muitos de seus planos. Uma costumeira manifestação antimariana do demônio é aquela de manifestar imensa raiva quando é nomeado o Coração Imaculado de Maria, porque lhe faz recordar, como frequentemente urrou, que o mundo foi consagrado por aquele *** (expressão irreferível dirigida ao Bem Aventurado João Paulo II) a este Coração Imaculado e esta consagração provocou a falência de muitos projetos seus, em escala mundial. Em relação ao Santo Rosário, uma vez, colocado no pescoço da pessoa que era exorcizada um terço, o demônio começou logo a gritar: “Está me esmagando, pesa, está me esmagando esta cadeia com a cruz no fundo!”.  O exorcista exclamou: “De hoje em diante esta irmã rezará o terço todo dia”. E o demônio imediatamente respondeu: “Mas sois tão poucos os que o dizeis (referia-se ao rosário, em comparação com o mundo inteiro! É bom para mim que seja assim porque me desagrada, porque invocais Aquela (referia-se a Nossa Senhora), me recordais a vida Daquele (referia-se à vida de Jesus, que meditamos nos mistérios do rosário)”. Num outro dia, enquanto exorcizava o demônio, o exorcista tirou do bolso um terço; logo o demônio gritou: “Leva embora essa cadeia, leva embora”.  “Que cadeia?”. “Essa com a cruz no fundo. Ela nos vergasta com essa cadeia!” Isto também é certamente uma linguagem metafórica que, porém, nos faz entender, de modo muito concreto, o poder do rosário e quanto o demônio o teme.
               
Imaculado Coração de Maria
                 Um dia, com grande surpresa, um exorcista se apercebeu de que Deus humilhava o demônio constrangendo-o a louvar Maria. De fato, enquanto o exorcista invocava Maria, disse: “Ela é a única que está em toda parte, me ‘mata’, me ‘matou’ sempre, sempre me ‘matou’, bota os pés na minha cabeça; o seu maldito véu me estrangula toda vez; nenhum de nós resiste”. A estas palavras o exorcista exclamou: “Muito agradecido, Mãe; muito agradecido, Coração Imaculado!”. O demônio rebateu imediatamente: “Deixa para lá esse Coração: cravamos nele uma espada e não morreu, crucificamos Seu Filho e não morre: tomou outros filhos!” Em um outro exorcismo, enquanto o exorcista louvava o Imaculado Coração de Maria, o demônio disse: “O Seu Coração é nossa dor. Quanto mais o transpassamos, mais vivo se mostrou; quanto mais o esmagamos, mais Ela nos esmagou; quanto mais sofria, mais sofríamos nós. Nós queríamos ‘alegrar-nos’, ela ao invés nos matava com seu pranto: as suas lagrimas são fogo que nos mata”. Num outro dia, enquanto o mesmo exorcista invocava o Imaculado Coração de Maria, o demônio falou dos espinhos cravados nele (que representam os pecados da humanidade) e daqueles que reparam as ofensas para com este Coração, e disse: “Os homens me ajudaram a cravar nele milhões de espinhos, me ajudaram a espetar nele todos aqueles espinhos. Vós é que me ajudastes! Mas quanto mais espinhos, mais força; quanto mais sangue, mais glória; os vossos pecados se transformaram em glória porque outras tantas almas se consagraram a expiá-los e cada alma lhe faz saltar um espinho, e cada espinho que salta finca um pau de fogo em nosso cérebro. Nós os espancamos, nós lhes batemos, nós os queimamos, nós os magoamos, nós os despedaçamos, e eles ali a orar. Nós os insultamos , nós os caluniamos, e eles por terra a orar. Não acabará nunca esta tortura. São muitos, são demais! Quantos inconscientes se consagram e não esperam outra coisa senão morrer por Aquela... e seu Filho!”
                Em um outro exorcismo, vangloriando-se ele dos sofrimentos provocados em pessoas inocentes, o exorcista começou a orar decididamente: “Senhor Jesus Cristo, enquanto na cruz parecíeis vencido, enquanto parecia que poder das trevas tinha vencido para sempre, na realidade éreis vós que estáveis vencendo para sempre”. E o demônio retorquiu: “É tudo culpa Dela, é tudo culpa de Sua Mãe. Por isso ensinei a esta cretina (referia-se à pessoa que ele atormentava) a odiá-la e ela conseguiu superar também isto. Ela (aqui se referia a Nossa Senhora) ora sempre, não se cala um momento e nós somos vergastados pelas suas orações”. Evidentemente falava tanto da intercessão que Maria estava exercendo diante de Deus por aquela mulher, quanto pelo crescente amor por Maria que ela estava alimentando. Em outro exorcismo, também aqui com uma evidente linguagem metafórica (não tendo ele pele nem cérebro, porque espírito imaterial), acrescentou: “Toda vez que desce nesta terra (referia-se  Nossa Senhora), nós afundamos muitíssimo mais. Cada lágrima sua é um buraco em nossa pele, cada olhar seu é um rasgão em nosso cérebro, cada passo seu é o nosso fim. Estamos procurando detê-la, não o conseguimos porque ela é mais poderosa que nós. O Mal não tem nenhum poder sobre ela”.
                Um episódio particularmente comovente é o seguinte: um dia, dirigindo-se a uma imagem de Nossa Senhora, presente na sala onde o exorcista estava em atividade, o demônio começou a gritar: “Por que ofereceste tudo Àquele? Por quê? Por quê?!” O exorcista intrometeu-se: “O que ofereceu?”. E ele respondeu: “Sob a cruz Dele, ela sofria!” Referia-se claramente à oferta que Nossa Senhora fez dos seus sofrimentos e dos sofrimentos de Jesus ao eterno Pai no momento da crucificação. E então o exorcista começou a dizer: “Recorda-te que Maria, aos pés da cruz, ofereceu Jesus ao Pai e ofereceu sua própria pessoa com Jesus ao Pai. Por nós seus filhos ofereceu este sacrifício”. A estas palavras soltou urros indescritíveis e evidentemente esmagado pela força redentora que brota do sacrifício de Cristo e de Maria no Calvário, disse: “Basta, basta! Não me faças recordar, basta, estás me queimando!”
                Na Sexta-Feira Santa de 2006, enquanto um exorcista desenvolvia o seu ministério lendo no Evangelho de João as palavras que Jesus na cruz dirigiu a Maria: “Mulher, eis aí o teu filho” e aquelas palavras dirigidas a João: “Eis aí tua mãe!”, assim se expressou o demônio: “Em um instante Ela amou todos os seus filhos por todas as gerações e deu o seu segundo ‘sim’. Depois do ‘sim’ dado ao Anjo, seu o seu ‘sim’ ao seu Filho na cruz, porque vós vos tornastes seus filhos”. O exorcista então, entre o pasmo e a alegria, porque compreendia que o demônio estava claramente constrangido, malgrado seu, a dizer coisas que nunca teria querido dizer, continuou lendo as palavras do Evangelho: “E a partir daquele momento o discípulo a tomou na sua casa”.  E o demônio com uma repugnância tremenda, que manifestava na voz e nas atitudes, acrescentou: “As almas puras tomam a Mãe de Deus no seu coração. O vosso corpo e o vosso espírito são a casa do Senhor, e nela deveis tomá-la. Todos os filhos de Deus deveriam tomar Maria dentro de si mesmos e aquilo que Ela vos ensinou com sua vida. Vós tendes um grande meio que é Maria, usai-o muito. Orai a ela, rezai muito, tornai-a vossa. Ela caminha sempre ao vosso lado.”
                Diante dessas palavras, o exorcista sabendo que a Sexta-Feira Santa é um dia especial de graça, recordou-lhe que o sacrifício de Jesus na cruz por amor a nós, as suas chagas, o seu sangue, suas dores, suas humilhações, a sua oferta ao Pai, juntamente com as lágrimas e as dores de Maria aos pés da cruz e a sua oferta junto com o Filho ao Pai por amor a nós. E enquanto dizia todas estas coisas, o demônio continuou, afirmando com grande abatimento do exorcista que o escutava: “Estávamos também nós ali ao pé da cruz, alguns os instigávamos contra Ele, os estimulávamos a contestá-lo, a berrar contra Ele, a desafiá-lo. A outros tentávamos insinuando em suas mentes dúvidas de que Ele não era verdadeiramente o Messias. Alguns estavam ali para ver algum milagre e convencer-se de que Ele era o Messias: que estúpidos! Fizemos fugir dali tantas pessoas que não acreditavam mais, apavoraram-se ao ver que morria e os poucos que ali permaneceram convenceram-se quando morreu que nada era verdade, porque se morreu nada mais podia se fazer. Quando tiraram o corpo da cruz, olhamos também João, dizendo na sua mente: ‘Olha que fim teve o vosso Messias, olha que fim teve o teu Messias!’. Tentamos também a Mãe. Ela tinha o coração despedaçado, mas ao mesmo tempo existia nele uma grande paz, e perdoava a todos, amava e sofria: o seu perdão era total, o seu amor era total, a sua oferta era total. E isto nos venceu! Inutilmente insidiamos a sua fé. Ela continuou a orar. Ela era a única que conservou a fé na Ressurreição. O Seu Coração já o sabia e no alvorecer do dia depois do sábado, Ele se apresentou por primeiro a Ela. Não sabemos o que possam ter conversado, só vimos que naquele encontro existia uma grande paz e um infinito amor, mas não podíamos ouvir as palavras, o seu discurso de amor estava fora do nosso alcance. Depois vimos Madalena que ia ao sepulcro”.
                Certo dia, no exercício do seu ministério, o exorcista disse que celebrar a Santa Missa por aquela pessoa, o demônio quase sem forças para reagir, porque já estava próximo de sair do possesso, deixou este testemunho: “Não sei como lhe tenha vindo à mente sacrificar-se por vós, lixo imundo que outra coisa não sois. Como fez para sacrificar-se por estes seres que não valem nada, que não entendem quanto ele os tenha amado e quanto os ama, porque o ofendem continuamente. Para Ele a Missa não serve, Ele tem tudo; é só para vós que a inventou, só para vós, para aproximar-vos Dele, para fazer-vos tê-lo a cada dia, e vós, estúpidos, escarrais em cima. E vós não o aceitastes, vós que poderíeis verdadeiramente ser como Ele. Ele vos quer a Seu lado (isto o demônio disse com extrema dificuldade) e vos dá todos os dias aquele Corpo e aquele Sangue, nojentos para nós, mas que para vós são tudo, o único meio para chegar à salvação, para não vos perderdes conosco. Como não entendê-lo? Ele ali está e vos diz: ‘Estou aqui. Tomai-me’.  A nós disse: ‘Afastai-vos!’. A vós disse: ‘Estou aqui!’.
                Noutra ocasião, durante uma grande batalha, em que o exorcista intuía claramente que o demônio procurava opor-se para não repetir o que Cristo lhe estava mandando dizer, num certo ponto completamente derrotado pela força de Deus, exclamou: ‘Ele está me ordenando dizer-vos: Não tenhais medo, ide ao encontro do vosso Deus. Abandonai toda ligação com o mal sobre a terra. Enchei do Senhor a vossa vida, abri dentro de vós espaço só para Jesus Cristo, segui Jesus na alegria e no sofrimento. Louvai-o sempre. Ele é a vossa salvação! Ahhhhhh!’ (foi o urro que emitiu pelo tremendo esforço que havia empregado para dizer o que a ele aborrece)”

                Pois bem, queridos filhos e filhas da Igreja de Deus, estas são as palavras do livro. Creio que sendo elas fortes como são, podem ser tomadas a peito por nós como um alerta. Se nos apegarmos à Virgem Santíssima, ao Santo Rosário e de modo especial ao Santo Sacrifício da Missa, nosso Inimigo comum nada poderá conosco.
                Que nosso Grande Deus e Senhor Jesus Cristo nos abençoe, e Sua Mãe Santíssima nos cuide.

Com carinho e orações
Roberto Amorim,
Indigno Escravo por Amor da Virgem Maria.
21 de novembro de 2011 -  01:54h