"Não me leve de mim! Leve-me até mim!"



            Talvez a razão da maioria de nossas angústias e tensões seja o fato de, costumeiramente, distanciarmo-nos de nós mesmos e enveredarmos por ruas e vielas com luzes de neon em suas esquinas, mas que não têm a adequada iluminação ao longo de seu curso. Tais luzes são frias e intermitentes, típica previsão de sua fugacidade e efemeridade. Contudo, são coloridas, brilham, são atraentes, e por isso parecem nos puxar para si.  Nossos olhos, mesmo os olhos interiores, não se acostumaram ainda à verdadeira beleza, aquela que exige tempo e cuidado para ser captada e, por isso, se deixa atrair pelas caricaturas e vitrines que se estendem ao longo da senda.
            É interessante perceber que, nesse caminhar interior, não há um tempo cronológico fixo, não há uma instância de acontecimentos ou espaço que possa ser mensurado. Há ruas nas quais é dia claro, e vielas em que se faz noite. Simultaneamente chove e faz sol em certas avenidas. O quintal de uma casa recebe fortes e brilhantes raios solares e, quando atravessamos a rua, espessas e escuras nuvens prenunciam um grande temporal naquela calçada.
            O fato é que, inegavelmente, estamos todos a caminho de casa, a caminho de nos tornarmos aquilo que somos. O perigo do caminho é quando decidimos insistir em estacionar nossa vida em endereços que, confortáveis e convidativos que sejam, não são nosso destino final e nem sequer apontam para ele. Talvez pareçam melhores, mais bonitos, talvez até mesmo consigam fingir ser o lugar certo, mas são becos, barracos, casas condenadas. E o acolhimento e conforto iniciais tornam-se languidez e torpor, relaxo de uma vida envolta em morte, morbidez de uma semente que não germinou.
            Não somente as ruas e lugares nos conquistam ou sequestram, mas se o fato é que estamos todos a caminho, é certo que havemos de encontrar outros na mesma estrada, caminhando na mesma direção ou fugitivos de si mesmos. Encontraremos pessoas e espectros entre nós. Estes com olhares vazios, aquelas com olhos fulgurantes de vida. Espectros com olhos vazios, mas sedutores, dispostos a se fazer passar por aqueles que buscam também retornar para casa. Eles, na verdade, não caminham, mas fogem de si mesmos e, por isso, estão condenados a jamais reassumirem a identidade do que são. Por isso tentam constantemente nos fazer romper com o laço que nos une à nossa história, com o fio de ouro que nos liga à nossa origem e destino. Espectros nos roubam de nós, levam-nos para longe, a algum caminho ermo e distante de nossa vizinhança. E quando chegamos a tais lugares, soltam nossas mãos e lá nos deixam, distantes de casa, distantes de nossas ruas, distantes de nós mesmos.
            Mas há lugares e pessoas que, também a caminho do que são, prendem nossos olhos aos seus, pois têm capacidade de refletir o que somos. Um olhar que nos compromete nos faz amadurecer, e nos devolve, nos leva de volta a nós mesmos. Olhar para alguém que está disposto a traçar o mesmo caminho de volta para casa não é simplesmente como olhar num espelho, mas é olhar o caminho de volta e perceber que ao nosso lado caminha outro eu, outro pedaço de mim para o qual posso olhar e ver minha essência refletida na transparência daquela alma. Assim, percebemos que o fim do caminho não está tão longe quanto parece, e as vitrines e luzes das esquinas não tão atraentes assim, e não podem de maneira alguma ofuscar a verdade do que somos.
            É preciso buscar aqueles que nos refletem; aqueles em cujos olhos Deus desenhou a rota da nossa volta pra casa. É preciso estar constantemente na presença daqueles que nos levam de volta para nós mesmos, simplesmente por estarem a caminho junto conosco. Pessoas que, tão somente por olharem na mesma direção, certeza de que, ainda que caminhemos sozinhos por algum tempo, nos encontraremos na chegada à casa.
            Encontremos estes que nos devolvem à nossa morada, que nos levam de volta a nós mesmos, ao lado dos quais o caminho não nos causa tanto medo, tanta hesitação, tanta insegurança. Eu os tenho encontrado, e tenho aprendido, ainda que a passos lentos, a ser um pouco do que são para mim...
            Não se deixe levar de você! Resgate-se!
Roberto Amorim
LAVS DEO
17 de março de 2012 – 01:24h

"O Teu Amor me Sustentará..."


           

          Gostaria de poder iniciar esta reflexão de forma leve e despreocupada, porque foi justamente desse modo que eu a pensei, e foi desse modo que desejei e acreditei que poderia fazê-lo. Entretanto, não é de hoje que percebo o fato de que inspirações vindas genuinamente de Deus nos custam a serem construídas, pois tendem a rasgar-nos por dentro e sangrar nossas feridas para que continuemos nosso processo de cura, antes de tocar e converter quaisquer outros corações. Tal é o peso e a densidade do que ora escrevo. Desde o princípio destas linhas, noto que minha intenção e desejo não poderão ser realizados sem que haja de minha parte uma entrega para que eu mesmo ouça e experimente a Verdade presente nestas palavras, Verdade essa que não é minha, senão Daquele a quem busco servir a cada dia de modo menos indigno e com mais pureza de coração.        
            A frase com que inicio esta reflexão me parece conter duas realidades aparentemente contraditórias, mas profundamente ligadas entre si. Parece-me ouvir e captar nesta frase, que é na verdade título e verso de uma canção da Comunidade Católica Shalom, a força incomparável do amor de Deus que me sustenta e conduz na caminhada e, ao mesmo tempo, ressoa em meu coração a responsabilidade que tenho para que a Graça de Deus em minha história seja eficaz. É interessante notar que, mesmo essa Graça sendo completa, não anula ou violenta a liberdade humana, e por isso mesmo não nos tolhe em nossa dimensão de responsabilidade pessoal por nossa conversão.
            Confesso que as primeiras vezes que ouvi essa canção, e não é de hoje que a ouço, ela não me atingia por puro e simples superficialismo meu. Como músico que sou, tenho a natural e triste mania de estacionar minha percepção no instrumental das músicas, em seus arranjos e acordes, melodias e consonâncias, relegando a um segundo plano a letra da canção. Bem, o que me consola e tranquiliza é justamente o fato de que Deus conhece nosso coração e sabe bem como fazer para transpor nossas muralhas interiores, de teimosias e preconceitos. E foi isso o que aconteceu comigo, por meio dessa canção, que me foi apresentada pela amiga Hayanne Cristhian há cerca de um ano. E hoje, talvez por conta do momento que vivo ou talvez por uma maior maturidade espiritual em meu caminhar, percebo o que Deus deseja me falar por meio dos versos desta composição.
            “O Teu Amor me sustentará /A Tua Graça não me faltará / (...) A Tua Graça me bastará...”. Acredito firmemente que, quando Deus inspirou o coração do compositor a escrever esta letra, já pensava em mim e na forma como planejava atingir-me. Percebo o Senhor me dizendo que, por mais que eu encontre justificativas para meus erros e pecados, por mais que eu busque razões em minhas carências para embasar o meu “direito de errar”, existe uma razão superior a qualquer outra para que eu continue a caminhar com decisão pela santidade: A Graça de Deus é o que me sustenta e me basta! Nenhuma outra realidade pode tomar o lugar desta certeza em minha história, nenhuma outra certeza ou opinião pode sobrepor-se a esta. Esse Amor e essa Graça são as fundações e alicerces dos meus pés bem fincados no chão da estrada chamada conversão, e é deles que preciso tirar as forças para suportar as dificuldades.
            Tudo isso pode soar muito romântico ou como um sonho bom se não observarmos realidades concretas por meio das quais essa ação de Deus em nossa vida se manifesta. E posso falar por mim que, por meio de sinais muito singulares e oportunos, tenho vivido muitas vezes a triste experiência de perceber claramente sinais de Deus ouvindo minhas súplicas de socorro e me perceber então ignorando categoricamente Seus Braços estendidos em minha direção. Ocasiões nas quais temos claramente diante dos olhos da alma, e às vezes diante de nossos olhos físicos também, a oportunidade de não pecar, de não errar, de sermos melhores, mais aprimorados e resistentes com nosso homem velho, e decidimos enveredar pelo caminho mentiroso de uma vida sem Deus. Poder-se-ia pensar: “Mas será o caso de que um simples momento de negação de Deus pode condenar toda uma vida?”. Bem, um ato ruim tomado muitas vezes conduz a uma atitude rebelde, que por sua vez pode conduzir o coração a um vício, e desse modo acabamos por acorrentar nossa vida a uma constante opção pelo pecado, fazendo dele um projeto de vida, “justificando” tudo isso com nossas carências e desejos desregrados.
            Se tivermos o cuidado de abrirmos os olhos para percebermos a ação de Deus em nosso caminho, perceberemos o quanto Ele usa circunstâncias as quais não damos a menor importância, situações das quais pensamos: “O que essa situação, conversa, passeio, bate papo virtual tem a ver com santidade?”. E tem sido por meio da presença de pessoas que, com o mesmo desejo de santidade e busca interior, tenho notado os sinais desta Graça de Deus para mim, que não me desampara, e o quanto isso é providência divina em minha história de vida. Ignorar tais presentes seria mais uma vez desdenhar e opor-se à Misericórdia de Deus para comigo. Perceber nos olhos de outros que, ainda que tendo as mesmas fraquezas que eu, não desistem do caminho, tem sido a concreta manifestação de um Amor que me sustenta apesar de todo pecado que eu possa cometer, muito mais eficiente do que um milagre em que eu veja cair pão do céu ou o mar de Ipanema abrir-se no meio. Acredito que o milagre maior que Deus deseja para nós seja abrir de par em par as portas de nossa alma para nele fazer sua morada.
            Toda essa ação de Deus, essa Graça que nos basta e não nos desampara em nenhum momento exige de nós uma resposta, uma cooperação prática. Nossa parte precisa ser cumprida, e cumprida bem, pois Deus já cumpriu a Dele, deixando à nossa disposição o Seu Amor e Misericórdia. E é confortante e maravilhoso saber que, mesmo que essa atitude precise partir de mim, Deus já preparou a situação para que eu saia dela como vencedor.
Bem, hoje decreto para mim que quero uma história diferente, uma história na qual a ação de Deus em mim tenha oportunidades constantes de me fazer melhor. Certa vez compus uma canção na qual dizia: “Não quero interpretar papéis que para mim não foram feitos”. Sei bem que o Diretor de minha história é Deus e sei que Ele não deseja personagens, mas quer que eu livremente entregue à Sua Graça a essência do que sou, para que Ele me faça mais forte, fiel, decidido e santo.
Hoje, mais uma vez sinto pulsar em mim uma promessa e um princípio divino, que me foi dado tempos atrás, e colocado num outro texto que aqui mesmo nesse blog já publiquei, chamado UM ESTILO DE VIDA. Convido a todos que o leiam também! Mas faz-se necessário atualizar em mim o sentimento que a promessa de Deus realizou em meu coração, e assim concluo nossa partilha de hoje. Desejo que muitos corações possam fazer valer a ação sobrenatural da Graça de Deus em suas vidas, por meio de uma vida decidida pelo Senhor, de intensa busca de todos os meios necessários para vivermos a santidade. Encerro com as palavras que o Senhor inspirou a mim na época em que escrevia a outra reflexão aqui mencionada. Ainda que as palavras, ao nosso ver, possam estar localizadas num lugar distante no tempo, a eternidade mora dentro delas, fazendo com que sejam sempre vivas e atuantes. Que assim seja em nossa história!

Se fores fiel em tua busca, Eu te farei fiel na santidade que desejo para ti.

Com carinho e orações,
LAVS DEO.

Roberto Amorim
Indigno Escravo por Amor da Virgem Maria
08 de março de 2012


“Aquele que não vive na Graça de Deus, acaba vivendo uma vida sem graça” (Padre Léo, SCJ)


               Com o passar do tempo, vamos descobrindo a graça de ser mais de Deus, mais santo, mais do céu. E graça igual a essa não existe e nem tente procurar porque também não há nada parecido. Venho descobrindo há algum tempo toda a beleza desse estado de espírito e confesso que NUNCA senti algo tão real e intenso quanto o amor de Deus. Padre Léo tem uma frase um tanto engraçada e objetiva, que diz mais ou menos que: “Aquele que não vive na Graça de Deus, acaba vivendo uma vida sem graça”. E era assim que eu vivia minha vida, completamente sem graça. Na verdade, eu pensava que a graça eram as coisas do mundo, as amizades e escolhas erradas. Uma pena esse meu pensamento. Quando tive de fato um encontro e uma experiência de total entrega a Deus, pude perceber e enxergar claramente o quão belas são as coisas do alto. E muito mais que isso, pude descobrir que minha única escolha era por Jesus. Ao perceber isso, me fiz as seguintes perguntas:“Pouts, como pude passar tanto tempo assim? Totalmente perdida, e me achando estar encontrada num mundo onde quem mandava eram meus impulsos e quereres? Como pude passar tanto tempo sem esse amor que me constrange e me envolve a cada encontro?”

Hayanne - Roberto - Léo - Lucas
                Ultimamente, estar na presença de Deus e perto dos que estão também na presença Dele tem sido o diferencial dos meus dias, das minhas semanas e, consequentemente, da minha vida. Engraçado é que antes, o fato de eu ter amigos que não estavam na presença de Deus não me afetava tanto, talvez porque eu ainda não havia vivido um verdadeiro encontro com Deus e não ter a noção de que sou toda e inteiramente Dele. No momento da decisão, precisamos deixar alguns amigos. Fazer as contas do que realmente querermos viver. Distanciar-se desses “amigos”, às vezes, faz parte de um caminho de conversão. E, como tantas outras pessoas, passei por esse caminho. No começo é estranho, não se pode negar. Mas com o tempo, percebemos que isso é de fato o melhor e Deus passa a nos trazer pessoas que estão também no mesmo caminho, vivendo em Sua Presença. Hoje percebo o quão importante é ter alguém durante a caminhada que te fale mais de Deus e que, a cada gesto, te leve pra mais perto Dele. Isso nos encoraja, e é essa  a palavra do cristão; CORAGEM! É preciso ser muito corajoso para ouvir o chamado de Deus todos os dias, e é preciso também ATITUDE para seguir este chamado.

                Há uma peça teatral chamada O CANTO DAS ÍRIAS, da Comunidade Católica Shalom, que retrata muito bem o que venho passando há algum tempo: as quedas, as renúncias, a dificuldade de levantar olhando somente nos olhos de Jesus e, mais do que isso, a glória de passar por todas as provações tendo Jesus ao meu lado o tempo todo. Eu não me lembro bem o dia em que deixei de ser uma iria, acho que talvez porque ainda estou vivendo o processo de deixar de ser.

                No começo, quando me decidi por Jesus Cristo, pensei: “Bem, acho que com Deus a caminhada vai ser bem mais fácil. Afinal, Ele morreu na cruz por nós”. Escrevo esse pensamento rindo até, porque percebo que as coisas foram e são totalmente contrárias ao que pensei. Se alguém lhes disser que a caminhada com Deus é fácil, podem ter certeza de que essa é a maior mentira dita até aqui. Quando nos decidimos pelas coisas do alto, o inferno inteiro se levanta, provações aparecem de todos os lados e tentações que buscam fazer você desistir da caminhada.

                Não pense que Deus é perverso por permitir isso. Não! Isso jamais! Adriano Gonçalves, membro da Comunidade Canção Nova, nos diz em um trecho do livro SANTOS DE CALÇA JEANS:Deus não pode facilitar, pois se fizer isso, tirará a nossa parte, aquela que nos cabe realizar”.

                Vou lhes contar uma história para que possam melhor entender o que eu quis dizer acima:
“Um certo sujeito rezou e pediu ao Senhor que baixasse sua pressão arterial. Deus então disse a ele:
- Meu filho, eu escutei as suas preces e resolvi ajudá-lo. Retire o sal da sua comida e sua pressão vai baixar.
O sujeito olhou para Deus meio desapontado e respondeu:
- Mas Senhor, confesso que eu fiquei um pouco desapontado. Eu esperava um pouco mais de Deus Todo-Poderoso...
O Senhor então lhe respondeu:
- Você não quer a minha ajuda, você quer que eu faça as coisas por você! Assim a sua vida não vai funcionar!”

                Bem, já ouvi um grande amigo meu dizer: “O céu começa nas pedras, naquela terra cheia de pedrinhas que machucam nossos pés ao pisarmos descalços...” E é exatamente assim. Não é que Deus seja mau. NUNCA! Somente que são as nossas escolhas que nos fazem desviar do nosso real propósito com Deus. E é aí que as coisas começam a se complicar, quando então começamos a querer que tudo fique mais fácil e que Deus começa a fazer por nós o que nos cabe exclusivamente. Ele caminha conosco e nos ajuda a levantar cada vez que tropeçamos nas nossas vontades e caímos nos nossos pecados. Mas Ele não pode levantar por nós! Essa é a parte que nos cabe! Só nós podemos fazê-la!

                Quer ver um exemplo muito simples disso? Jesus todos os dias bate à porta do nosso coração, e enquanto nós não a abrimos, Ele não entra, não pula a janela e nem arromba a porta. Ele simplesmente espera! E quando caímos, como já disse, Ele não pode se levantar por nós. Esta é a nossa parte: PERMANECER DE PÉ! Não pense você que, por isso, Deus deixa de ser quem é. Muito pelo contrário, Ele não sai do seu lado e quando você decide levantar, sabe o que Deus faz? Pega em suas mão e diz: “Vem, meu filho, deixa que eu te ajudo!” E em seguida, limpa as sujeiras do seu joelho.

                Garanto a vocês que, recompensa maior que o céu, não há!

                Encontro vocês a caminho do céu! 
               
               Shalom!

















Hayanne Cristhian
4 de março de 2012