SILÊNCIO FEBRIL (Noite Escura da Alma)


            
             Algo ainda resta dentro em mim que não permite ao meu coração desacorrentar-se do mistério que nele habita. Mistério ora claro, ora escuro; ora eloqüente e dinâmico, vez por outra mudo e apático. Mistério simples e insondável, que obstina meu coração a querer mergulhar dentro dele e jamais sair de lá outra vez, ao mesmo tempo em que intimida e me repele, dada a profundidade a que me convida. 

            Há em mim treva e luz, ambas partes da mesma tela pintada em meu ser. Meu coração abriga em si tal condição não por sua natureza, mas por encontrar-se à beira do seu próprio abismo, onde habita o efêmero e o eterno. No mais profundo de mim mesmo, onde a razão é desterrada de sua imponente cátedra de marfim, reside o TUDO que almejo alcançar e tocar. No mais intimo de mim habita também a treva que me “guarda” de perder-me no Absoluto de meus dias; a escuridão que me oculta e protege de deixar-me consumir pelo TUDO. Será esta treva um anjo? Será um demônio que me retém escravo de mim mesmo?

            Muito já ouvi acerca das realidades celestes e das realidades infernais, e de sua total discrepância. Hoje sinto e percebo que ambas são feitas de FOGO, e ambas desejam consumir meu interior. A celeste me abrasa e impele, e me lança impiedosamente ao abismo do TUDO; a do inferno, me abrasa e me guarda, mantendo-me cativo numa inexpugnável fortaleza de medos e limites, vivendo o conforto e a segurança de não deixar meu coração perder-se e optar por salvar-se. Ambas me abrasam, me queimam, me consomem... 

            Como disse o apóstolo João ao mestre, “Que caia fogo do céu e os consuma”(Lc 9,54), é este o ultimo grito interior do qual me lembro ter ouvido. Seja o braseiro celeste, a incandescente lareira eterna o destino último desta pobre acha de lenha que sou eu. Por hora, crepita algo dentro em mim. Labaredas vivas e selvagens, que me pedem este silêncio febril. Qual o braseiro arde em mim e me consome, somente o tempo, sacerdote das humanas razões, me dirá...  


Roberto Amorim
19 de novembro de 2009 – 19:30h.

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