O Valor da Vida


             Vez por outra eu me percebo trazendo à memória uma das coisas que já ouvi minha mãe falar inúmeras vezes, e com o tempo fui percebendo o óbvio: as mães sabem muito mais do que ousamos supor. À medida que fui amadurecendo, à medida que fui passando à idade adulta, fui percebendo o quanto faz sentido acreditar que o ser humano é a mais bela criação que já pisou este planeta. E de acordo com o milenar conceito da filosofia grega, tudo o que é belo, é necessariamente bom e verdadeiro. Tudo o que é belo, bom e verdadeiro torna-se então, de algum modo, reflexo de uma transcendência imanente, ou seja, tem em sua natural limitação e finitude, rastros, pedaços de uma beleza que está alem do que os sentidos conseguem captar. Bem, creio que tal é a beleza que adorna a vida humana, e penso também não estar errado ao supor que a maioria das pessoas comunga dessa ideia.

                Se olharmos para a existência humana de uma maneira geral, podemos cair na tentação de achar que o homem não deu certo como um todo, dadas as atrocidades que cometeu contra si mesmo ao longo do tempo. Entretanto, assim como só se pode apreciar um quadro atendo-se aos detalhes, se mirarmos as delicadezas que adornam o homem e toda a sua trajetória humana, de modo particular as minúcias e caprichos dos seus processos humanos mais simples, veremos que não caberá em palavras a majestade que orna a vida de todo homem.

               Pergunto-me se essa beleza toda está oculta aos olhos de tantos que hoje em dia teimam em desrespeitar de modo absurdo esse dom tão excelso que somente a nós compete apreciar... Pergunto-me também se tais pessoas não têm a sensibilidade de perceber que todo o mal que se comete contra qualquer homem é um sangrento rasgo que dá em sua própria alma; é uma chaga que afeta diretamente a beleza que herdamos da eternidade da qual viemos. Parece-me que o homem, ainda que não compreenda o seu real valor, o imensurável tesouro que é, ao menos intui a respeito disso, e assim tenta colocar sob sua tutela o poder decisório sobre a vida que tem. Vida essa que, ainda que terrena e finita, traz em si uma inexplicável faísca de eternidade. Sim! Mesmo ao descrente, ao cético, àquele que em nada crê de transcendente, a ideia de término do elã vital consome de medo e angústia sua existência. Ver-se impotente diante do fim da vida mostra-nos que nosso próprio ser clama por algo que não conhecemos, mas que a vida que em nós habita é muito maior do que nosso coração tem capacidade de conter. O instinto humano, ainda que observado somente nos seus aspectos mais primitivos, mais animalescos, clama pela eternidade na qual não crê. É curioso notar que os crimes que hoje se cometem contra a vida são na verdade uma espécie de tentativa desesperada do homem controlar algo que está muito alem de sua capacidade intelectiva. O homem, ao mesmo tempo que anseia descobrir o valor e sentido completo de sua vida, tentando controlá-la, a destrói, pela ambição de ter em suas mãos o poder e o valor que a existência possui. Parece-me que tenta possuir aquilo em que sua existência está inserida. Tenta possuir aquilo que é, mas não o alcança; tão transcendente é sua existência que não lhe cabe nas mãos, no peito, no coração... A vida que busca dominar o domina, por força de seu valor tão supremo, tão indescritível.

               Assim, como não enxergar que não há preço para esse dom? Como querer enjaular numa espécie de qualificação a única realidade que está intrinsecamente para alem de toda e qualquer caracterização? Não há preço que se possa dar para o que não nos pertence. A vida humana sempre estará acima de qualquer tipo interesse, mesmo os mais honestos. Por outro lado, não pode haver interesse sinceramente honesto quando descarta e desconsidera que acima de si pulsa uma vida a qual não compramos, não fomos buscar, pela qual não pedimos. Pulsa uma vida maior, que nos é dada por dom e graça divina. Como já disse não se pode dar preço ao que não possuímos. Entretanto, a beleza da vida está justamente no fato de que não somos possuidores de tal tesouro, mas a ele pertencemos, e assim desfrutamos gratuitamente desse valor inominável.

               Contemplemos com gratidão o valor que temos em nós, nossa vida, nosso ser de modo total e o ser alheio. Não creio que seja obra do acaso todos os sentimentos maravilhosos que habitam em nós desde os tempos imemoriais.

               Somos doces reféns do imenso valor que habita em nós...

Roberto Amorim
19 de fevereiro de 2011

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