"Você é a cara do seu pai..."



Quero parecer-me contigo
Nos mais simples gestos, revelar a Ti
Por isso corrija-me, modela-me.
Faz desta pedra um retrato Teu...
(Só um Adorador -  Fraternidade Toca de Assis)

                De modo totalmente inusitado estou escrevendo estas linhas, e hoje tal situação me surpreende de modo muito forte. Explico-me: normalmente Deus me inspira a escrever algo depois de algum momento de intimidade, oração ou reflexão acerca de tantas experiências vivenciadas na intimidade de Seu Coração. E, verdade seja dita, nada mais normal e típico. Entretanto, hoje aprouve a Deus provar-me que quem realiza toda esta ação em mim é Ele. Digo isso porque estou redigindo esta reflexão à mão, num dos meus muitos cadernos de escritos, no funeral de uma prima muito querida, situação que julgo não ser a ideal para fazê-lo. E olhando para todo contexto por outro prisma, percebo tratar-se de uma experiência profundamente divina. Numa situação de dor e morte Deus inspira ao meu coração palavras de vida. Não posso crer de outro modo senão que a ressurreição de Cristo possuiu infinitos desdobramentos em nossa história, quando em nós encontra ressonância. Faz-se sempre viva, atual e presente a máxima cristã: O ESPÍRITO SOPRA ONDE QUER!

                Estas palavras brotaram em meu coração após uma despretensiosa frase que ouvi de um dos meus tios, e que dá nome à presente reflexão. Ao aproximar-me para cumprimenta-lo, tio Silvio pegou em minhas mãos e disse: “Você está a cara de seu pai!”. Certamente é gostoso ouvir tal comentário, especialmente pela sempre presente saudade que tenho de meu pai, falecido em 1993. Senti-me muito bem ao ouvir isso e lembrar-me de meu pai e minha infância. Mas sob o véu dessa doce saudade ressoou em mim outro tom, uma outra melodia vinda da carinhosa frase de meu tio: “VOCÊ É A CARA DO SEU PAI!”. E aqui desejo partilhar o que senti ao ouvi-la.

                O carinho de meu tio comigo me levou a pensar no quão profundas e notáveis são em nós as marcas de nossa origem. E de modo ainda mais marcante e indelével em nós estão as marcas do eterno, marcas daquele que em Seu Coração nos plasmou e forjou nas chamas de Seu Infinito Amor. Sobre todo o nosso ser estão as marcas do rosto do Pai. Queiramos ou não temos a Face de Deus gravada, esculpida, entalhada em nós. Tal certeza basta em si mesma, e no mais íntimo de nosso coração é latente e viva esta realidade: SOMOS A CARA DO NOSSO PAI!

                Contudo, o que ouvi de meu tio me fez pensar profundamente se de fato as pessoas reconhecem meu Pai nas feições que trago. Feições essas que não podem ser puramente físicas já que meu Pai não tem um “rosto” palpável. Os traços de Deus em mim jorram em gestos, olhares, atitudes... na poesia concreta com a qual faço alquimia das dores de todo dia, tornando em ouro o cascalho que minhas misérias me impõem. Ainda assim eu sei que essa alquimia não é feita por mim. Minha ínfima colaboração está em não atrapalhar demais a ação de Deus em minha vida.

                Em meio a tudo isso, lembro-me de uma de minhas mais recentes composições, que foi fruto de um momento de silêncio e adoração diante do Senhor. Diziam os versos da canção:


“Perto de Ti é onde mais desejo estar
E os que olharem pra mim
Possam todos te enxergar (...)
E vem moldar em mim
O teu jeito e tuas feições
Para que de mim
Nada mais se veja
Que não seja reflexo Teu, meu Senhor”
(Servo Adorador – Roberto Amorim)

                Lembro-me vivamente do quanto esta vontade me sacudia por dentro na época da composição dessa música e percebo que tal desejo jamais mudou em mim. Ao lembrar do momento que compunha a canção, sinto o quão livre interiormente eu me torno ao permitir que esse desejo não seja somente um amontoado de boas intenções, inférteis e insossas se permanecem tão somente dentro em mim. Quanto permito, porém, que essa “face” de Deus escorra em minhas lágrimas, se desenhe em meus sorrisos; quando dou ao Pai a chance de mostrar-se por meio de mim, então me encontro e vivo verdadeiramente aquilo para o que Ele me impele.  Meu coração encontra repouso nesta certeza: dia a dia buscar concretamente ser imagem e semelhança de meu Pai. 


                E em meio a essa profusão de sentimentos, recordo-me de um célebre desenho animado dos estúdios Disney, O REI LEÃO (The Lion King, 1994). Pode parecer inadequado mencionar uma animação num texto de reflexão cristã, mas ela nos permite vislumbrar todo o sentido que buscamos decifrar ao longo de todas essas linhas. No filme, o personagem SIMBA é um pequeno leãozinho, filho do grande Rei MUFASA. Em dado momento da trama o irmão de Mufasa, SCAR, na intenção de usurpar o trono real, prepara uma armadilha para o pequeno Simba. O pai, na tentativa de salvá-lo, acaba morrendo em meio ao estouro de uma manada de gnus. Esse fato desencadeia no pequeno leãozinho um grande sentimento de culpa, que foge de seu lar e vai viver uma espécie de vagabundagem espiritual, juntando-se a dois habitantes da floresta, TIMÃO e PUMBA.

                O leãozinho cresce afastado de tudo aquilo que formava sua essência. E em uma das muitas noites solitárias que enfrentava,  ao lembrar-se mais uma vez de seu pai olhando o próprio reflexo na superfície de um lago, ele vê desenhado em seu “rosto” a face do PAI (!). Nesse momento, naquilo que poderíamos chamar de uma EPIFANIA, Simba ouve a voz de seu pai lhe dizendo: “Simba, você se esqueceu de mim!”. Simba, angustiado, responde que não, que jamais esquecera o pai e que se lembra de Mufasa todos os dias. Então Simba escuta do pai a resposta que cada um de nós que se sinta afastado de Deus e vivendo as misérias de uma irresponsabilidade espiritual deve buscar: “SIMBA, VOCÊ SE ESQUECEU DE MIM PORQUE VOCÊ SE ESQUECEU DE QUEM VOCÊ É! VOCÊ É FILHO DO REI!”.


                Assim é também conosco. Esquecemo-nos de quem somos e acabamos vivendo longe de tudo que nos compete enquanto filhos do Rei. Quando nos permitimos demais, nossas liberdades nos tornam escravos de nossas carências e a face de Deus em nós fica soterrada sob os escombros de nossa vida interior. O rosto do Pai  já não é enxergado nem por nós nem por outros que nos vejam. E o título de nossa reflexão torna-se não mais do que uma triste lembrança de quando sabíamos quem éramos: FILHOS DO GRANDE REI!


                Por fim, esta reflexão não estaria completa sem pensarmos na Grande Mãe de Deus, Maria Santíssima. Ela como ninguém pode nos ajudar a corrigir os borrões, despir as máscaras que ocultam a face do Pai em nós. Tomando por base as palavras do Bem Aventurado João Paulo II que disse: “Jesus, rosto humano de Deus...”, é então claro e límpido que o rosto do Senhor veio do rosto da Virgem.
                Encerro esta nossa partilha com uma bela canção à Virgem Santa, pedindo que Ela, dia após dia, venha tornar-nos mais parecidos com Seu Divino Filho.

No teu ventre lúcido, claro
Eu quero encerrar-me, oh Mãe
E então dissipar minhas trevas
Em tua puríssima luz
Eu quero ser nova semente
Eu quero de ti renascer
E ser despertado pra vida
E a vida de Cristo viver

Desenha em mim os teus traços
Modela-me em teu coração
E o que desfigura a beleza
Retira de mim com tua mão
Eu quero ser qual teu menino
Em sua estatura crescer
Eu quero ser todo teu, minha Mãe 

Eu quero em teus braços viver

Todo teu, oh minha mãe, quero ser. 

(Todo Teu –Davidson Silva)



Com carinho e orações

Sob os olhos da Virgem Santíssima
Roberto Amorim
(Capela São Tiago – 10:30h)

5 comentários:

  1. Bravíssimo, my dear.

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  2. Que lindo! Meu pai tbm morreu mas eu não me pareço com ele, talvez o meu pé rsrs'

    É sempre bom ler seus textos e a maneira poética que vc escreve :)

    Beijos fique com Deus!

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  3. olá, tudo bom? Seu blo é lindo, parabéns

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  4. Beto, mas um texto impactante em minha vida! Você conhece a minha história e eis que nunca vou ouvir comparações de semelhança ao meu pai; mas aqui você me faz lembrar que antes de ter tal semelhança ao pai, eu tenho caractériscas únicas do Pai Eterno, sou imagem e semelhança dele. E o que dizer de nossa Mãe Maria? Eu escuto comentário do tipo: "você me faz lembrar Maria". Gratidão Beto por me lembrar da riqueza que tenho gratuitamente!

    Jesus sacramentado, nosso Deus amado e certeza do céu!

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  5. É difícil ter qualquer reação depois de ler algum texto seu... Mas como você mesmo escreveu, é uma ação de Deus em ti: [...]normalmente Deus me inspira a escrever algo depois de algum momento de intimidade, oração ou reflexão acerca de tantas experiências vivenciadas na intimidade de Seu Coração. E, verdade seja dita, nada mais normal e típico. Entretanto, hoje aprouve a Deus provar-me que quem realiza toda esta ação em mim é Ele. [...]

    E eu fico exatamente assim, sem ação diante do imenso Amor de Deus, sem saber o que pensar... Em real "estado de choque".
    Deus sempre me surpreende! E me envolve de carinhos... Deus é simples e se manifesta na minha vida de forma simples... Ele faz sim coisas grandiosas, mas eu só me apego as coisas ditas "pequenas".
    Obrigada pelos seus textos, obrigada por se deixar nas mãos do Pai!
    Obrigada, muito obrigada!
    Deus te abençoe sempre mais!

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